1- DA RIQUEZA
Um rico aproximou-se do Inominado e disse:
-Que posso dar-vos para poder dormir tranqüilo?
E ele respondeu:
-Dai-me vossa ambição e conservai vossa riqueza.
-Não é coisa fácil dormir em cima do ouro, porque
o colchão de ouro, além de produzir a insônia, provoca
dores nas costas e na cabeça.
-A riqueza é uma prostituta de braços duros que se entrega
a muitos ao mesmo tempo e ninguém consegue conciliar o sono em
meio à turba fervente. Viveis criando armadilhas que abrem centenas
de entranhas famintas ante o passo dos homens, e a essas armadilhas
dais o nome de - finanças..
-Todos os males são repugnantes, menos o maior deles, o dinheiro,
que é sempre o mais desejado e o mais querido.
-Naturezas há que são imunes aos micróbios; nenhuma
porém é invulnerável ao ouro.
-Cada povo fala o seu próprio idioma, e existem no mundo mais
de dois mil idiomas e dialetos.
O ouro, porém, fala com eloqüência em todos eles e
em todos ele mente.
-O ouro é isto: um deus ruminante, que se alimenta da carne de
seus adoradores, que bebe seu sangue, mastiga seus ossos e deleita-se
em ficar ruminando-os. Entre os deuses adorados pelos homens, o ouro
é o deus dos deuses, porque seus monstruosos rugidos aumentam
as orelhas e seu hipnotizante fulgor desvia a vista.
-Observa! Ele é como u'a moenda, que chama os corações
para triturá-los e pulverizá-los.
-Até mesmo as almas seletas e nuas desejam, às vezes,
vestir-se com o seu brilho.
Até aquele que se venceu a si mesmo anseia por aquecer-se em
seus raios frios.
Adora-me e dar-te-ei tudo, diz ele. Mas ele não dá nada,
porque apenas compra e vende: compra o fulgor de nossos olhos com o
brilho enganador do seu ouropel.
É como o pescador que entrega a sua isca à pesca e com
isso afirma ter dado.
-Quem desejar dormir tranqüilo deve dar-me a sua veracidade.
-Aquele que enriquece, torna-se ambicioso e o ambicioso é um
impotente.
-Todo ambicioso crê que o ouro é a escada que leva ao trono,
mas ignora que esse trono é feito de metal demasiado duro para
costas que pedem repouso.
-As barras de ouro que existem nas janelas dos palácios são
mais duras do que as de ferro que guarnecem as prisões. Se não
quereis morrer asfixiados, abandonai vossos palácios e vivei
desnudos ao ar livre.
-O homem, contudo, pode viver feliz na Terra, e o mais feliz é
o que menos tem.
-Sede pobres de espírito, bendizei a pobreza pequenina e dormireis
tranqüilos durante a noite.
-Bendita seja a pequena e virginal pobreza!. Quando terminou de falar,
o rico chorou muito e, então, o Inominado disse:
-Chorai, filho meu. Chorai. Vossas lágrimas são ouro derretido,
emanando de vossas entranhas metalizadas, e isto aliviará vosso
coração de seu insuportável peso.
Jorge Adoum
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